Ivete Sangalo é destaque no 'The New York Times'

domingo, 1 de setembro de 2013

Ivete Sangalo
Se Ivete Sangalo fosse norte-americana, e não uma das artistas mais populares do Brasil, sem dúvida seria descrita como belter (cantora que tem um vozeirão). No palco ela é ousada, informal e barulhenta, o que a inclui na mesma linhagem de Tina Turner, Janis Joplin e Bette Midler, e seus discos geralmente incluem músicas que a permitem extravasar a emoção dramaticamente, em alto e bom som.

E o estilo não poderia ter dado mais certo: ela já vendeu mais de quinze milhões de discos como artista solo ‒ e segundo a imprensa nacional, é a cantora em atividade que mais fatura no país, chegando a US$500 mil por show; tem 8,5 milhões de seguidores no Twitter e sua própria produtora.
"Poder entreter as pessoas é um triunfo, mas o engraçado é que, quando criança, nunca sonhei em ser cantora, nunca me olhei no espelho fingindo ser estrela pop", disse ela em uma entrevista. "Pensava em ser atriz e só quando comecei a brincar o Carnaval na adolescência e ouvir a música dos trios elétricos é que percebi que era a única coisa que queria fazer na vida."
Sangalo é a expoente máxima de um estilo agitado e barulhento conhecido como axé que combina uma série de influências brasileiras e estrangeiras em uma fusão para lá de animada, lembrando muito o que se ouve durante o Carnaval. Samba e reggae são as fontes óbvias, mas rock, soul e os gêneros caribenhos como salsa e merengue, entram na mistura, assim como os ritmos regionais.
Sua enorme popularidade ilustra bem o abismo que há entre a percepção estrangeira do que é a música brasileira e a realidade. Enquanto cantores e compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marisa Monte conquistam elogios no exterior com seus vocais sutis e melodias/harmonias sofisticadas, a parada brasileira é dominada pelo axé, pelas baladas românticas e pela versão comercial da música de raiz, conhecida como "sertanejo".
"Para o bem e para o mal, Ivete reflete o estado da música popular brasileira em um momento em que o público aposta em ritmos animados, tipo dance, com letras bem simples", explica Chris McGowan, um dos autores de "O Som Brasileiro", em uma entrevista telefônica. "Ela é uma profissional exemplar com um vozeirão que se destaca sobre a percussão e os demais instrumentos. Por outro lado, não há nada sutil nem muito artístico nela; é puro show business."
Cada vez mais a popularidade de Ivete, uma ex-modelo com olhos escuros e expressivos, voz rouca e personalidade extrovertida, extrapola o palco e os discos. Ela não sai da TV e das capas das revistas de fofocas, foi eleita musa pelos jogadores da seleção, resolveu se arriscar como atriz e já fez editoriais de moda para a Vogue brasileira e outras revistas.
"Ela não é só cantora ou artista, mas também uma personalidade de quem o povo gosta muito e toma como exemplo", diz Ricardo Pessanha, o outro autor de "O Som Brasileiro". "As mulheres principalmente a admiram e a veem como uma pessoa forte, independente, feliz, bem vestida e realizada, com um filho e muito dinheiro."
Ivete nasceu no interior do estado da Bahia, em Juazeiro, cidade natal de João Gilberto, um dos pais da Bossa Nova. Quando criança, a caçula de seis irmãos ouvia todos os gêneros de música popular, mas depois que a família se mudou para Salvador, capital do estado mais rico musicalmente de um país obcecado por sua música, seus horizontes se abriram para incluir reggae, pop norte-americano e soul.
"Adoro Sly & The Family Stone, George Clinton, Prince, Kool & The Gang e principalmente Stevie Wonder. Geralmente não faço cover, mas tento colocá-los na minha música, principalmente na percussão", ela conta.
O pai de Ivete, que era joalheiro, morreu quando ela era ainda adolescente; foi quando começou a se apresentar nos bares de Salvador acompanhada apenas de um violão, aprendendo a se destacar e desarmar as plateias mais hostis com bom humor e bate-papo entre as músicas. Em 1993 entrou para a Banda Eva, gravou vários discos de sucesso com o grupo e partiu para carreira solo em 1999.
Marco Mazzola é um produtor que, antes de trabalhar com ela, fez discos com praticamente todas as melhores cantoras do país das últimas décadas, incluindo Elis Regina, Gal Costa, Elba Ramalho e Fafá de Belém. Entre as características mais marcantes da baiana, ele destaca o poder de sua voz, seu carisma no palco, seu tino para negócios e a certeza de saber quem é.
"Sua voz tem um calor muito peculiar, transmite alegria a quem a ouve. É cantora, atriz e dançarina dramática; canta com o coração e é determinada como o quê."
Sem ter mais nada a provar no Brasil, Ivete esticou o olho para o mercado internacional; sua primeira turnê nos EUA aconteceu em 2010, incluindo apresentação no Madison Square Garden lotado ‒ que se transformou em um DVD de sucesso ‒ e agora vem testando outros mercados do país com shows em Nova Jersey, Boston, Miami e na Costa Oeste.
Na primeira excursão, praticamente todo o público era composto de brasileiros e portugueses, onde ela também é muito popular, mas em sua passagem por Los Angeles, anunciou, toda contente, que "metade de público era norte-americano", tanto falantes de inglês como espanhol.
No ano passado, ganhou um Grammy Latino por um disco que fez com Gil e Veloso, a quem idolatrava quando era menina. Para facilitar a entrada no mercado internacional, ela já se apresentou com Dave Matthews, Shakira, Juan Luis Guerra e Alejandro Sanz e, em dezembro, quando gravar seu próximo álbum ao vivo, em Salvador, para comemorar os vinte anos de carreira como cantora profissional, pretende incluir músicas em inglês de Bob Marley e Stevie Wonder.
Porém, não está claro ‒ nem para ela ‒ se vai seguir os passos de alguém como Shakira, por exemplo, a colombiana que alterna projetos em inglês e espanhol. Para isso, teria que se comprometer a passar longos períodos fora do país ‒ que ainda passa por um momento econômico favorável e incluiu mais de 50 milhões de brasileiros na classe média, gente, em parte, responsável por seu sucesso.
"É uma carta na manga esse lance de sair do meu país e vir para cá por um ano para tirar vantagem de todas essas coisas maravilhosas; acontece que o que eu tenho lá no Brasil também é ótimo, mas é diferente. Só não posso parar de cantar."

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