Ivete Sangalo: “O mundo é preconceituoso ainda de várias maneiras”

domingo, 4 de maio de 2014

A cantora baiana diz que apoia a campanha da banana lançada pelo jogador Daniel Alves porque pode servir para erradicar o racismo do planeta.

A cantora Ivete Sangalo (Foto: Gabriel Rinaldi/ÉPOCA)


A cantora baiana Ivete Sangalo falou a ÉPOCA em um hotel em São Paulo, onde fez o trabalho de divulgação de seu novo DVD e da próxima turnê nacional, a ocorrer a partir de agosto em dez capitais brasileiras. Ivete já vendeu 16,5 milhões de discos. Seu CD  Ao vivo, de 1997, vendeu 2 milhões de exemplares. Ela tem sete álbuns de estúdio, quatro ao vivo e um finfantil. Lançou quatro DVDs e viajou pelo Brasil e o mundo em 11 turnês. Nesta entrevista, ela comenta atualidades, confessa que não sabia o que era música indie e analisa a situação da música popular brasileira. Ivete também se diz a favor das biografias não autorizadas, desde que biógrafo e biografado tenham garantias legais para se defender.
ÉPOCA – Qual a sua opinião sobre as biografias não autorizadas? A senhora concorda com o movimento do grupo liderado por Roberto Carlos?
Ivete Sangalo –
 Quando alguém escreve alguma opinião sobre mim, está tudo certo. Não pode xingar que é falta de respeito. Mas quando alguém publicar alguma mentira, você não vai ficar quieto, vai? Não há propriedade sobre uma história contada sobre alguém. A propriedade já foi para o espaço. É preciso observar princípios jurídicos e a verdade. Eu não vou escrever mentiras sobre alguém, revelar coisas que só poderiam ser reveladas pela pessoa que é objeto da biografia. Isso desvirtuaria a atividade dos biógrafos. Não acredito na biografia feita à revelia do biografado. Quem saberia mais a respeito de mim que eu mesmo? Não sou contra escreverem biografias sobre mim. Não adianta proibir a circulação de uma biografia porque ela já saiu e ninguém mais segura. É preciso um regulamento para que o biógrafo seja também respeitado. Biografado e biógrafo têm de comungar.
>> Em ÉPOCA nas bancas, leia mais perguntas desta entrevista com Ivete Sangalo
ÉPOCA – A senhora não mandaria recolher a sua biografia como fez Roberto Carlos?
Ivete – Dentro dos meus motivos e da minha carreira, eu não recolheria uma biografia sobre mim. Mas eu não sei os motivos que levaram o Roberto Carlos a proibir a biografia dele. Eu respeito Roberto e todo e qualquer artista. Ele é conhecedor das suas dores, da sua vida e das suas vontades. Não sabemos da profundidade do malefício que isso aconteceu a ele.
ÉPOCA – A senhora postou uma foto com a banana no Instagram em apoio ao jogador de futebol Daniel Alves. O Brasil é racista? Ou mais racista que outros países?
Ivete –
 Minha hashtag é #bananacontraopreconceito. A simbologia de jogar a banana no campo foi horrível. Daniel Alves é meu comparsa, conterrâneo de Juazeiro, um homem de uma índole maravilhosa. Eu achei sensível ele pegar a banana e comer. Que bobagem jogar a banana. Foi uma ação contundente. Ele foi sensível. Ele poderia ter sido violento. Mas não. O mundo é preconceituoso ainda de várias coisas. O ser humano precisa aprender. Não importa onde e quando, se é preconceito. O racismo não é diferente de outros tipos de preconceito, como o preconceito religioso, o preconceito regional, o preconceito de padrão físico, de sotaque, a cor de seus olhos, se você é puro de raça ou não. É uma característica do ser humano. O ser humano precisa caminhar muito para evoluir. Não sei se vai sair outra coisa do homo sapiens. Mas tenho fé em Deus que o ser humano ainda pode evoluir.
ÉPOCA – A senhora é responsável por ter franqueado a música brasileira para todos os registros, sem distinção ou preconceito. De alguma forma, a senhora redefiniu o conceito de popular brasileiro. Como se deu esse processo e o que mudou na música brasileira nesse meio tempo?
Ivete –
 Eu nunca me tolhi de nada. Minha contribuição é mais de atitude do que de música. O comportamento transforma – e foi isso que fiz. Nunca cheguei a um lugar e senti receio de conversar com alguém de um outro segmento. Se alguém sabe mais do que eu, só tenho um caminho: aprender. Quem pode determinar o certo e o errado, principalmente quando se fala de sentimento? O que para você parece determinante em música para outro pode não ser.
ÉPOCA – A senhora nunca se prendeu a nada em termos musicais?
Ivete –
 Antes de saber da pergunta, eu já respondo. É ansiedade. Música é o seguinte: a música vem para você. Se você fizer planos com ela, ela vai ter um objetivo meramente mercadológico. Claro que você tem que observar estratégias de lançamento, como o que estou fazendo agora com o DVD. Ou divulga ou então fica em casa e não grava nada, não é, mano? Todo artista quer um público. O disco é a conexão do artista com o aplauso. Tem o trâmite do ensaio, o cachê, a produção, o palco. Vou cantar em cima de uma árvore? Quero saber como é a árvore. Precisamos contratar um homem com uma escada para fazer você subir na árvore. Em cima de um palco? Preciso saber onde é. Em cima de um fusca? Mas onde o fusca vai ficar, na garagem? São trâmites de que você tem que utilizar para compartilhar o show com muitas pessoas. Mas você se limitar porque alguém vai achar estranho ou fuleiro ou menor? Se você não acha por que você tem receio de que alguém ache? Vai ter sempre gente que vai achar uma coisa, ou não vai achar nada, ou vai achar que é uma merda. Mas modular nessa sintonia aí, nada a ver.
ÉPOCA – O que a senhora aprendeu com a experiência de palco, trio elétrico e estúdio de gravação?
Ivete –
 Quando assisto a um show, eu me encanto. Eu estava vendo um show do Michael Jackson, ele dançando, a banda dançando e tudo funcionando. E eu: vou fazer um show assim, dançando igual aos caras, vai ser uma loucura. Mas aí quando vou ensaiar me dou conta de que não queria fazer isso, eu só tinha achado bonito. Você aprende com aquilo, mas acaba depois não concordando mais com aquilo. É um aprendizado.
ÉPOCA – A senhora aplica tudo o que aprendeu no novo DVD?
Ivete – 
Sim, e a experiência ajudou nisso. É o primeiro espetáculo que dirijo do embrião à realização.
ÉPOCA – Qual é o item mais importante no show?
Ivete – 
Eu acho esse negócio de luzes, efeitos, pular daqui e dali, tudo isso é pop e moderno e eu gosto dessa movimentação. Gosto das cabeças balançando. Tira o pé do chão, joga pra cima, eu quero ver! E o uníssono, que coisa bonita. Uma vez cheguei em Angola e o povo abriu a voz. Eu cantei chorando porque as pessoas abriam os acordes em terça e quinta. É um povo muito musical. Eles começaram a cantar como se fosse um coro. Acho tudo isso maravilhoso, mas isso não pode me atrapalhar. Eu estou ali para cantar. Eu quero olhar as pessoas, eu quero sentir. Eu faço tudo para esse momento: emagreço, me exercito, eu cuido da voz. A voz é o grande barato da minha vida. Você quer me ver chateada é quando eu não consigo fazer uma coisa com a voz e tenho que esperar dois dias, dormir direito para melhorar a voz.
ÉPOCA – Quais os cuidados que a senhora tem com a voz?
Ivete –
 Tenho cuidado constante. Conto com a assistência de uma fonoaudióloga. Eu me encontro com ela de quatro em quatro meses e a gente faz exercícios de voz e de força. É como se fosse uma ginástica. Quando a voz começa a ficar flácida e cheia de celulite, aí malha de novo. Ainda mais que a música que eu faço é uma música de ataque.
ÉPOCA – Na sua próxima turnê, a senhora vai juntar palco e trio elétrico. Isso exige um treinamento especial?
Ivete –
 A banda é uma colaboradora essencial para a passagem do palco para o trio.  Teremos apelos visuais e um apelo acima de tudo musical. No fundo, trio elétrico e palco são a mesma coisa. O trio elétrico é um palco itinerante. Ele é característico do Carnaval. Essa intimidade com o trio a gente tem. A gente reitera essa festa popular que é o carnaval, que a gente não vê em lugar nenhum. E olha que eu já rodei o mundo. Nunca vi nada parecido, só talvez a Love Parade em Berlim. Mas não tem banda, são DJs incríveis. Há muitos anos, eu estava em Berlim fazendo uma turnê quando vi os caminhões andando com música, gente, é axé, é? Mas não tinha circuito, o andar, nem mudança de cenário. Era o caminhão andando e o pessoal correndo atrás dele, vam’bora vam’bora. E aquela troca, isso tem na Love Parade.
ÉPOCA – Como é sua relação com o palco?
Ivete –
 É uma relação afetiva. O palco e o trio traduzem isso de transitar por dois ambientes. São dois palcos que resumem a minha vida artística. Quando o trio anda, o povo vai atrás, é uma farra. Os blocos de antigamente, os das fanfarras, foram trazidos para o ambiente do trio. Trio é um negócio louco demais. Antes do YouTube, quando tentava explicar o trio para os artistas de fora, eles tinham  dificuldade de entender o que era o trio elétrico. Lenny Kravitz não conseguia entender, mas como, o caminhão anda, e o P.A. fica onde? Fica na lateral. O show inteiro vai andando? E como é o cenário? Lenny, o cenário é o céu, é o coqueiro, é o prédio. Mas aí acaba que horas. Sei lá que horas acaba, meu irmão! São seis, sete horas de show. E ele, mas não é possível. Ele ficou maravilhado. Todo mundo fica. O sonho da Shakira é vir ao Carnaval. Ela nunca veio até porque é uma data de férias para todo mundo.
ÉPOCA – O mercado não influencia?
Ivete –
 A oportunidade não é igual para todos os artistas. Eu não acho que a minha música tenha que tocar mais do que a desse ou daquele artista.  O mercado abre várias possibilidades, de corrupção a uma identificação com determinado segmento de público. É aquilo que tem que ser.
ÉPOCA – A senhora escolhe o que ouve?
Ivete –
 Você sabe achar os seus artistas? Esse negócio de culpar a música popular sentado na cadeira é muito confortável. Eu tenho um labor como artista. É errado pensar que o artista chega e abre as portas, fala o que quer e do que gosta. É uma visão distorcida do nosso mundo de hoje. Eu trabalho. Eu corro atrás, velho. Mas poderíamos ser mais democráticos na apresentação dos artistas, tanto para os muito populares como os mais cultos. A igualdade deve ser proposta. Em contrapartida, temos algo muito favorável: a internet. Hoje a gente ouve a música da Índia. Você nem sabe que existe, digita ‘música da Índia” e ouve. Muitos artistas da nova geração que jamais seriam ouvidos hoje têm esse instrumento de exibição de seus trabalhos. 
ÉPOCA – Como assim?
Ivete –
 Vejo que muitas pessoas foram crucificadas e arruinadas na carreira por algo que fizeram por coisas que hoje acontecem corriqueiramente. Já vi carreiras brilhantes e grandiosas se destruírem por causa de um conceito de uma época. Artistas que foram condenados por pessoas que simplesmente se adéquam à opinião do momento. Não falo de gosto. É menos mesquinho do que a opinião para fazer parte daquele grupo pensante daquela época. Passa-se o tempo, tudo se dilui e se adapta ao discurso que é da resistência. Não dá para dar um replay e dizer para o fulano desculpa por ter estragado sua vida por causa de uma opinião que eu dei no passado e que depois fiz um milhão de vezes. Você pode cair nessa cilada se quiser. Porque esta bonitona aqui não cai, não.
ÉPOCA – Ivete Sangalo é uma cantora de MPB?
Ivete –
 Eu me considero uma cantora de MPB sofisticada. Eu não condeno a opinião alheia. O artista não tem que buscar a unanimidade. Ele não é unânime para os outros e quer que os outros sejam com ele? Nem eu me supervalorizo nem fico me depreciando com algo que muitas vezes é coerente com que eu acho também. Não vou sair distribuindo o folheto com as coisas que acho ruim. Não sofro com isso.
A cantora Ivete Sangalo (Foto: Gabriel Rinaldi/ÉPOCA)

ÉPOCA – Já cantou músicas de Dorival Caymmi?
Ivete –
 A minha vida inteira eu cantei Caymmi. Eu nunca gravei. Já gravei uma música de Dori Caymmi com poema de Jorge Amado, para a trilha da novela Gabriela. Tem coisas que eu gravo e tem coisas que eu canto. Quando eu não gravo eu canto. Todo bom baiano canta Caymmi [começa a cantar Conceição da Praia]. É um compositor esteticamente baiano. Caymmi é simples, puro, honesto, despretensioso. Onde não há pretensão acontece a popularidade. Tem que ser bom para ser popular. Bom chega.
ÉPOCA – Como está sendo sua experiência no programa Superstar? A senhora disse no programa que não sabe o que é indie.
Ivete –
 Não sei o que é indie. Sei não. Nunca me passou pela cabeça saber que a palavra estava colada com a figura. Eu sabia a palavra, mas não a figura. Achei ótimo saber. Mas ainda vou ter que saber discernir a concepção musical do indie. Para mim, era rock. Vou estudar indie. Quando eu tava 'indie', ele já tava voltando!
ÉPOCA – A senhora é defensora da música brasileira acima de todas?
Ivete –
 Não sou nacionalista porque tenho loucura por Stevie Wonder, All Green, Billy Paul. Não tenho essa coisa de defender a música brasileira com unhas e dentes. É preconceituoso ser ufanista. Mas lá em casa a música brasileira sempre esteve em evidência. Meus pais me encharcaram de informação musical. Eu solfejava Paco de Lucía dentro de casa. Eu boto meu filho para ouvir tudo. Para que colocar uma fronteira na música, meu filho?
ÉPOCA – A música brasileira se projetou internacionalmente, mas não tanto quanto gostaríamos. O que teríamos que fazer para fazer sucesso no exterior?
Ivete –
 Segundo o pessoal de Miami, a gente tem que falar inglês para fazer sucesso. Se você cantasse em inglês teria feito mais sucesso no show do Madison Square Garden. Os críticos falaram que Ivete cantou umas múscias que ninguém entendeu. “Dalila”, por exemplo. Música não se entende, se gosta. Não era porque eu estava no Madison Square Garden que eu ia fazer o show todo em inglês. Eu sou artista brasileira, vou cantar na minha língua. Posso até fazer um show todo em inglês, mas não porque querem que eu cante em inglês. De que me adianta.
ÉPOCA – A senhora mudaria para fazer sucesso nos Estados Unidos, como fez Shakira?
Ivete –
 Eu não me repaginaria totalmente com o fim de fazer sucesso nos Estados Unidos como fez a Shakira. Mas eu compreendo quem faça. Não tenho objeção a isso. Se vierem me dizer que tenho que gravar em inglês para fazer sucesso nos Estados Unidos, pera aí, mano. Peraí porque isso vai saturar na minha cabeça. Pode ser que um produtor incrível no Havaí e me sugira um álbum em inglês e aí eu posso querer e não fazer outra coisa na vida. Mas eu estou sentindo que não vou fazer, não. Estou numa onda que não.

ÉPOCA – Os jovens artistas sertanejos usam muito o corpo e mostram o abdômen sarado enquanto soltam agudos. Que você acha disso?
Ivete –
 E você acha que eu uso o quê quando eu canto? É o corpo. Eu quero estar belíssima no palco, exalando sensualidade, corroborando vários movimentos e ritmos. Eu não posso cantar minhas músicas parada. Clara Nunes usava o corpo, eu copio a vibração dessas mulheres. Os jovens estão usando o bíceps que é o corpo da moda. Se ser sarado é a verdade deles, é a verdade deles. Parto do princípio que cada um faz o que faz é porque segue sua verdade. É o meu princípio. Então é isso aí. Tudo tem uma causa e um efeito. “Tu és responsável por aquilo que cativas”, olha o velho Pequeno Príncipe ajudando a gente. Você tem que ser responsável sobre a própria vida. Se for para os muitos, será para os muitos. Se for para os poucos, que sejam os poucos. Se for para ninguém, vamos segurar essa peteca. A vida é assim. Senão você vai se privar de usar o bíceps porque nego não gosta. Se você não tem música, nem corpo nem bíceps, então não adianta.
ÉPOCA – E a moda da barriga tanquinho?
Ivete – 
Acho um absurdo (risos). Porque para mim ela não funciona mais...
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A cantora Ivete Sangalo (Foto: Gabriel Rinaldi/ÉPOCA)

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